Os demônios da garrafa


  Três da manhã marcava o relógio na parede, ou quase isso, ele não conseguia ter certeza, o relógio tremia demais e balançava demais. Com algum esforço levantou a mão para o garçom e pediu mais uma dose, sexta-feira, nada melhor pra compensar a semana do que dois ou três dedos de um velho e bom doze anos no copo. A bebida veio e junto dela uma advertência do garçom de que seria a última, estavam fechando. Balbuciou algumas reclamações sobre o porque de fecharem tão cedo e voltou-se a bebida.
   

Encarando o fundo do copo antes do gole, lembrou-se de histórias de terror que ouvia quando criança, alguém em alguma noite fria, chuvosa e propícia havia lhe contado que aquela era a hora dos demônios, três da manhã, a hora em que sobiam-se as cortinas do mundo deles e do nosso
 Lembrou-se também que adorava ouvir aquilo, que provavelmente era o motivo de nunca precisar ser chamado a atenção pelo pai para ir dormir cedo. Ainda tentava se lembrar dos motivos por traz da hora sombria quando foi interrompido pelo seu celular vibrando no bolso, sua mulher o chamava. Achou estranho, olhou para a cadeira do lado e lá estava ela, debruçada e entorpecida na mesa, ao menos estava até ele se lembrar de que ela na verdade era sua colega de trabalho.


– Merda!


 Sem tempo para despedidas tomou sua última dose, pagou a conta no cartão e deixou uma nota de cinquenta entre os dedos de sua colega adormecida, era para o taxi. Saindo do bar e seguindo para o estacionamento pensou se não seria melhor chamar um taxi para si, seguiu pensando até chegar no seu carro e então pensou que não tinha tempo para decidir. Entrou no carro jogando seu casaco no banco do passageiro, traçou no Waze uma rota pra casa por onde não havia sinais de polícia, girou a chave e seguiu caminho.
  Chegando em frente do seu prédio parou o carro na rua, não queria arriscar a garagem, era estreita demais e sabia que já tivera sorte o bastante chegando em casa vivo. Subiu as escadas o mais rápido possível. Respirou fundo tentando encher o peito de coragem e foi até a maçaneta, quando abriu a porta lá estava ela, desta vez tinha certeza. A cena tinha o mérito de ser exibida em horário nobre, sua mulher sentada no sofá com meia luz do abajur lhe tocando o rosto, lágrimas escorrendo dos olhos claros abatidos, silêncio e mais um motivo para dar continuidade as conversas sobre o divórcio. 


 A conversa ainda se mantinha pois ele se desculpava a cada segundo, explicou que estava mal pelas brigas que tiverem nos dias anteriores e não resistiu ao convite de um Happy Hour com a turma do trabalho, só percebeu o celular vibrar na décima ligação pois foi quando a maioria do pessoal já havia ido embora e então estava tudo silencioso. A esposa com algum custo e pouca vontade o compreendeu e até aceitou lhe ter em um abraço, foi quando a conversa deixou de se manter conversa.
 Uma marca de batom na gola da camisa branca de trabalho, ora, tem coisa mais clichê para denunciar um homem do que aquela marca vermelha estampada no pano? Estava completa a novela. Gritos vinham de um lado e explicações de como aquilo poderia ser uma mentira chegavam do outro, o divórcio agora parecia inevitável. Talvez ele até conseguisse suportar de uma maneira decente, mas tinha pena do filho, pensava nele a cada esbravejada que recebia, implorou a esposa para que parasse de gritar apontando em direção o quarto do garoto, estranhou quando sua mulher se calou de repente, olhando para onde ela havia apontado. Lá estava o garoto, agachado com as mãos nos ouvidos, desejando apenas que aquela briga acabasse.


 – Vá embora! – Ela disse, depois gritou, nada mais iria fazer ela mudar de ideia e ele sabia. Também sabia que por certo a guarda do garoto seria dela, não ia ver o filho mais que uma ou duas vezes na semana. Em um leve gesto de desespero empurrou sua mulher no sofá, pegou a criança no colo e correu em direção a porta. Ela tentou segurar mas foi empurrada novamente, ele bateu a porta da sala, bateu a porta do carro, as lágrimas e gritos ficaram pra trás. No banco do passageiro embrulhou o pequeno em seu casaco como se embrulhasse o presente mais importante do ano. Afundou o pedal do acelerador quando ouviu os gritos de sua mulher se aproximando do carro.


 O bom de ter uma criança como companhia é que se calam com apenas um chocolate amassado achado no bolso do casaco.

– Não siga meus exemplos, meu filho. – Ele disse com pesar.
– Então de quem eu tenho que seguir? –  Ele engoliu em seco.

 O ruim de ter uma criança como companhia é que as vezes se recebe mais lição de moral do que se recebe com adultos.


 Na estrada a chuva caia sem compromisso, os limpadores de parabrisas  faziam seu trabalho tornando o caminho mais visível para aqueles olhos cansados, era seis da manhã e ainda estava escuro. A ressaca chegava aos poucos mas certeira, ele dizia a si mesmo que podia lidar com aquilo, sempre fora competente quando havia de ser. Frequentemente checava se havia luzes vermelhas e azuis piscando no retrovisor. Também conferia minuto a minuto o garoto, este dormia com gosto, vez ou outra arriscava acordar levantando um pouco os olhos devido o barulho de buzinas reclamando espaço na pista, mas não tinha medo, não há o que temer quando se tem seu herói do lado.


 O dia acordava com preguiça, agora ele já não estava preocupado, acabava de passar a placa de bem-vindo da pequena cidade onde o avô de seu filho morava,  pretendia ficar lá alguns dias até as coisas se acalmarem. Estava bastante satisfeito pela competência que teve ao conseguir conduzi-los em segurança até ali, mesmo com aquela chuva que ainda se mantinha, mesmo com a cabeça zumbindo, mesmo com aquela visão turva e aquele bafo de álcool. Se sentiu confortável pra tentar lembrar da história da hora dos demônios, se lembrou que tinha algo a ver com a hora em que Jesus havia nascido. Gostou do que lembrava e se sentiu confortável pra ir mais fundo, queria lembrar o fim da história, conseguiu até mesmo visualizar o avô na varanda lhe contando sobre como os demônios saiam. Lembrou de algo sobre demônios em garrafas, conseguiu até mesmo senti-los tomando de súbito seu corpo, o espremendo e lhe estralando os ossos, o afogando e lhe tirando o calor do corpo, sentiu que não conseguia escapar.

 Ouviu o filho lhe chamar algumas vezes, mas não conseguiu acordar.

 Do outro lado da cidade sua colega de trabalho contava vantagem a uma amiga, havia se vingado com gosto de um colega de trabalho que se negou a beija-la, tinha certeza que ele ia ter sérios problemas com a esposa. Estava até um pouco arrependida do que fez, mas a culpa era da bebida.

 Na delegacia a esposa não parava de questionar a polícia, mesmo sabendo que não havia mais nada a ser feito. Prometeu a deus e o mundo que mataria o marido quando o encontrasse, ainda não sabia se ia conseguir perdoa-lo.




Texto: Joabe Leão
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Mr. Smooth

Colaborador do AAV. Tem uma grande paixão pelo blog mas vive não conseguindo deixar os posts em dia!

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